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Ediney Santana: A vida reinventada e outras histórias


The End

 

Começou trazendo pare dentro do seu quarto uma Tv.

Evitava sair do quarto às segundas-feiras, mas logo só saía aos sábados.

Trouxe o mundo para dentro do quarto.

Cavou em baixo da cama sua sepultura queria ser enterrado dentro do quarto.

Casou, teve filho, ficou viúvo, os filhos aos poucos foram embora.

Pintou cada parede do quarto com uma cor diferente, lacrou a porta, recebe a alimentação por uma portinhola.

Não se ouve barulho dentro do quarto, só há o silêncio.

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ediney-santana@bol.com.br

 



Escrito por Ediney Santana às 14h24
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Olhos nus

De: Ediney Santana

 

Ele enxergava com olhos devassos, por isso El Rei determinou que colocassem a sua frente à mesma paisagem: dois urubus em pleno voo.

Não conseguia fechar seus olhos. El Rei arrancou suas pálpebras, seus olhos ficaram ali expostos frente à paisagem insólita.

Cinquenta anos depois El Rei morreu, ele estava ali como sempre esteve, olhando a mesma paisagem, com uma diferença apenas: agora eram três urubus e um deles estava pousado em sua cabeça.

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Escrito por Ediney Santana às 12h18
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                 Todas as horas

                De: Ediney Santana

 

Relógios apavoram Pedro Risada. O Tik Tak o deixa nervoso e lentamente triste.

Tudo para ele lembra relógios: uma nuvem melancólica, um beijo entre dois desiludidos namorados.

Os relógios para Pedro Risada são tristes cavaleiros de razões mortuárias. Começou Pedro Risada a comer todos os relógios que encontrava pela frente. Até que ele mesmo transformou-se em relógio a badalar lentamente suas horas de agouro e silêncio esmaltado.

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Escrito por Ediney Santana às 18h21
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Ampulheta

          De: Ediney Santana

Estou aqui dentro dessa ampulheta desde o tempo em que nosso Senhor deixou a cruz e foi para o céu em busca do seu pai traidor.

A areia cai lentamente sobre meus olhos, não vejo nada, tudo fica a cegueira do tempo.

Cai grão após grão enquanto não sei da lua ou sol, pouco importa. Para mim tudo é sempre tempo e nada além do passando me leva a não existência das horas.

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ediney-santana@zip.net

 

 



Escrito por Ediney Santana às 20h06
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Essas noites

De: Ediney Santana

 

Porque o mais amado por mim é à noite, não sei da luz do dia, minha alegria está em tudo quanto for noturno.

O dia  é feito para o profundo sono,não quero luz alguma em minha pele. Ser noite quando o mundo dorme sua agonia sem saber. A noite não há nada ou alguém por perto, então  sou completo soberano de mim...o branco  do mundo é tão deselegante e opressor.

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Escrito por Ediney Santana às 19h48
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Tempo-tempo

De: Ediney Santana

Meia noite do dia 31 de dezembro do ano 2099, o tempo parou. Depois de cinco horas os relógios  do mundo todo voltaram a marca 6:00h da tarde e assim que chegavam a meia noite voltavam para às 6:00h seis horas de sempre.

Nunca mais nada foi além desse espaço tempo, sempre 31 de dezembro no ir i vir da alegria e do cansaço programado.

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Escrito por Ediney Santana às 10h34
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 Sementes de luz

                                De: Ediney Santana

 

Plantei em seu coração sementes de tudo que há de bom no mundo, toda luz qual havia em mim entreguei a você.

Meu fogo, meu sorriso, minha certeza de quem sou... minha paz... Tudo entreguei a você.

Fiquei plantada no vazio de mim, quem fui morreu contigo quando tudo em devoção te entreguei.

ediney-santana@bol.com.br

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Escrito por Ediney Santana às 19h18
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O Barbeiro

De: Ediney Santana

 

Pedro de Santa Inês sentou-se na velha e empoeirada cadeira de barbeiro de seu Otacílio.

O velho barbeiro falava sem parar, sem reticências, dizia estar preocupado com a guerra das Malvinas, embora Barra de Mundo Novo ficasse a milhas e milhas da ilha argentina.

Otacílio tinha medo que uma bala perdida o acertasse em cheio pelas costas.

Passou-se seis horas desde o inicio do corte de cabelo e quanto mais Otacílio cortava mais o cabelo de Pedro de Santa Inês crescia, o cabelo já estava a entrar na pequena igrejinha quando o padre Licanor “vai de retro satanás, na casa de Deus não”.

E foi crescendo o cabelo, cresceu tanto que Otacílio adormeceu ali em pé com a tesoura nas mãos.

Pedro de Santa Inês era só pelo, veio gente do mundo todo para ver o homem cabelo, até um piloto inglês que ia para a guerra das Malvinas pousou na Barra só para ver de perto o velho barbeiro adormecido e o homem do cabelo que nunca parava de crescer.

Pedro Santa Inês ficou ali, entre o velho Otacílio e o povo que já começava a acender velas e às vezes a jogar pedras.

ediney-santana@bol.com.br

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Escrito por Ediney Santana às 20h23
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       Bandeira, Tamanduá

            De: Ediney Santana

 

Nasceu dentro de mim um Tamanduá Bandeira, embora cego, sabia das luzes e escuridões do mundo.

Ele nascido levou consigo tudo de bom que em mim havia, deixou meu corpo como se fosse um saco vazio.

À noite não sei do sono, porque o Tamanduá Bandeira levou a leveza do sono das minhas noites, por isso meu coração bate no ritmo incerto dos pingos da chuva, meu sangue quase gelo machuca meus rins, tudo isso enquanto o Tamanduá Bandeira dança entre formigas.

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Escrito por Ediney Santana às 10h03
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                     Altair

                        De: Ediney Santana

 

Lá vem ele, o homem que nunca veste camisas, segue por aí indiferente ao frio ou calor, o homem sem camisas não parece feliz, todos olham para ele como se naquele corpo todo o mistério do mundo estivesse guardado, só porque ele é o homem que não gosta de camisas.

Entra no bar de Salvador, olha os homens jogando dominó, homens que só jogam dominó, ele olha todos parecem mais felizes que ele, porque ele é o único que não gosta de vestir camisas, porque ninguém é como eu. Pensa ele na sua calma triste.

Lá vai o homem que nunca veste camisas. Passa pela praça, olha o Chafariz, fica contente ao observar que os anjinhos de bronze também não usam camisas, misteriosamente o homem inimigo das camisas desaparece pelos becos da antiga cidade dos tempos dos barões e suas camisas de seda.

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Escrito por Ediney Santana às 17h35
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Eu, você e o cometa
                        De: Ediney Santana

“Cansei”. Ouvi essa frase do meu pai há exatos sessenta anos. Logo depois de ter dito isso meu pai segurou na calda do Haley e se foi.
Hoje entendo o meu pai, viver entre a relva e os da minha espécie é nada além de bisonho cansaço.
Seguro agora emocionado na calda de um colorido e elefante indiano e me vou para as mil e uma noites de Scherazade.

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Escrito por Ediney Santana às 14h45
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    Coração partido

           De: Ediney Santana

 

Cortou seu dedo anular e mandou para J. Guimarães que dormia com Ana, sua amante preferida.

Não adiantou, J. Guimarães, continuou dormindo. Então July cortou a mão inteira e mandou junto com um bilhete: com amor July.

J. Guimarães jogou na lata do lixo e trepou no corpo de Ana como se Ana fosse a única razão do mundo.

Então July cortou suas orelhas, J.Guimarães rio, July não gostou de ver nos dentes de Guimarães algumas caris. Disse para si mesma: as caris nos dentes do meu amor são culpa da vagabunda da Ana. July assassinou Ana.

J. Guimarães não se incomodou, já estava nos braços de Almeida de Menezes, seu segundo amante predileto.

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Escrito por Ediney Santana às 16h16
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                A menina sem rua

                     De: Ediney Santana

 

Acácia de Lurdes há dois anos não sai de casa, tudo porque tem medo que alguém possa lhe fazer mal.

Houve um tempo o qual Acácia de Lurdes só saia de casa nas madrugadas, era menos arriscado, pensava ela.

Pouco a pouco Acácia de Lurdes foi ficando esquecida e nem em sua casa era lembrada, não sai do quarto nem para comer. Seu irmão Juarez Pinto dizia que ela era louca, sua mãe dizia que na noite do nascimento de Maria de Lurdes uma coruja trouxe um agourento santinho de presente, por isso Maria de Lurdes era assim desigual.

Na madrugada passada Acácia de Lurdes resolveu sair de casa, foi até a pracinha do Bonfim e lá em um dos bancos adormeceu, calma e serena como sempre viveu e festejou sua vida de ausência.

Seis da manhã foi acordada por São Expedito que a levou para sua casa, sua santa e misericordiosa casa.

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Escrito por Ediney Santana às 09h17
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              Vem comigo

                     De:Ediney Santana

 

Jurema Dias sempre imaginou como seria a expressão de morte do dono da padaria. Pensou tanto nisso que o matou só para olhar sua face cristalizada pela morte.

Jurema Dias sentiu prazer nisso, logo imaginou como seria o enterro do seu filho João Dias, o afogou na banheira. Não gostou do enterro, porque lhe vestiram de anjinho.

Assim Jurema Dias foi matando um a um todos os habitantes do Vila Serena, até que   ficou  só ! Olhou do último andar a ladeira da Barra e imaginou como seria se do alto se jogasse.

Pensou que na hora que estivesse caindo criaria asas e sairia voando pelo Porto da Barra.

Jogou-se, de olhos fechados, não viu a hora que seu corpo espatifou-se em frente à Cultura Francesa.

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Escrito por Ediney Santana às 09h54
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Bem-mal

                    De :Ediney Santana

 

Pela manhã nos casamos

Fazemos uma festa

Brincamos de eternamente

Felizes .

 

À tarde nascem nossos

Filhos

Lindas crianças quase

Iguais ao que nunca fomos

 

À noite envelhecemos

E  de mãos

Dadas vamos nos esperar

Além do bem ou mal

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Ediney Santana às 10h05
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