Ediney Santana: A vida reinventada e outras histórias


 

    Come-carne? 

                 De: Ediney Santana

 

Não tinha rins, flor ou pâncreas. Não tinha nada além de um grande e perverso olho censor até do que não existia.

 Era a morte sem morrer a quem lançasse desapaixonadamente seu único olho de uma única cor.

“Seca pimenta” era o seu apelido. Resumia-se a um olho só. Depois que Ana Angélica (como se fosse uma peixeira Tramontina arrancou-lhe o coração e vendeu o seu próprio a Petra Azul) Seca pimenta nunca mais foi nada além do que um monstruoso olho a secar nuvens, pedra, peixe e amendoins.

Olhando-se no espelho “Seca Pimenta” só via o rosto de Petra Azul rindo do coração seu que lhe fora negado amor e paixões.

“Seca Pimenta” desapareceu hoje pela manhã ao cruzar a Praça do Rosário. Virou pedra, flor e rins. Na sombra sua  que ficou Petra Azul disse: “Secretamente eu te amei”

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Escrito por Ediney Santana às 15h24
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O dia indeciso                                

                      De: Ediney Santana 

 Nesta vida o mais belo que há é o nascer do dia, fico aqui sentado todas as noites só para alegrar-me os primeirinhos raios de sol.

Faltam dois minutos para clarear tudo de uma vez só. Como em um surto de mágica tudo fica claro e bom de se ver.

Quando fiquei assim na escuridão, só zanguei pelo nascer do sol que para mim é o único espetáculo bonito para quem pode ver.

Um minuto e você todos vão ver a explosão da luz nos olhos, na relva e na cantoria dos passarinhos.

Tudo vem devagar, eu gastava da fartura de luz, mas fico aqui só esperando o nascer do sol. É como eu estivesse em um precipício que nunca caio.

Minha pele deve estar como no último dia em que o sol eu vi, toda negrinha como a noite linda. Menos de uns segundinhos para o calor do sol e a alegria da minha luz chegar.

Sinto um palpitar no peito, uma dor sem doer e uma vontade danada de ver o sol em posto momento nos meus braços descansar.

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Escrito por Ediney Santana às 11h50
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      Ele, Jef(que nasceu para para ser tamanduá)

                              De: Ediney Santana

 

Quando morreu era como um defunto qualquer: frio, tosco, glorificado em uma estúpida imunidade a qual torna os defuntos mais estúpidos do que quando eram inultimente vivos.

Cinco dias depois de enterrado seus olhos abriram, ganharam vida. Aqueles olhos ali vivos em meio às ruínas do corpo pareciam um raio de luz em deserto sol.

Seus olhos flertavam agora a consciência desprezada quando enxergavam sem razão naquela cara periférica.

Os olhos começaram a crescer, cresceram tanto que arrebentaram o caixão e sepultura. Livres do corpo corroído por vermes, os olhos contemplaram o céu como se fosse a primeira vez

Olhos calmos, quietos e senhores do que viam. Tão contentes estavam que mereciam uma boca para um riso.

Alguém trouxe água benta, outro um terço, rezas, ladainhas e por fim a inquisição fez o céu perder-se dos olhos que já não sabiam do flertar consciência de si.

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Escrito por Ediney Santana às 10h56
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        O estar coisa no mundo

                       De: Ediney Santana

 

Eu de tanto amor fui assassinado pelo ser amado, o ser que me tinha em certeza de amor absoluto.

Não foi à bala, facada ou veneno o meu assassinato. De gente, o meu amor, me transformou em coisa, algo parecido como um sofá.

Quem é coisa amada não tem vontade própria, não tem prazer, é gente que deixa de existir para si e aceita vômitos de outro com medo de nem mesmo ser coisa deixar de ser.

Sofá, ralo de banheiro, cinza nos olhos e paisagem de esquinas imundas. Febre e uma borboleta no pé direito a rir do estado ser coisa alguma.

O ser amado se arma em amores por outra gente que logo vai deixar de ser gente para também ser coisa. Mas o ser amado também passa a ser coisa de si mesmo, como um sugador de energia vai morrendo como um sol que nunca se põe e, no entanto já é morto porque brilha sem um porque existir em si com paixão pelo outro.

Tenho uma úlcera na ponta da língua, parece uma bailarina valsando para um soldadinho de chumbo.

Soldadinho de chumbo que é coisa e não gente feita para guerra e uma bailarina que seduzida pela coisa se ser e não ser vai bailando para si mesma sem perceber que também é coisa.

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Escrito por Ediney Santana às 09h29
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        Diálogos e Silêncio

                            De: Ediney Santana

Tudo o que  J.V. Cidinha mais desejava era um sopro de vida para as suas bonecas.

Deu nome de santa a uma das bonecas e a outra deu nome de uma jovem prostituta que circulava fácil entre os moto-boys do Trapiche de Baixo.

- Peço a Dim-Plim (Santo muito cultuado na Ásia Ocidental, J.V. Cidinha ganhou a imagem desse santo de um caminhoneiro que costumava a lhe fazer agrados) que dê vida as minhas bonecas, não precisa ser um vidão, um soprinho de vida já é de bom tamanho.

São Dim-Plim atendeu ao pedido de J.V. Cidinha. As bonecas saírem pelo mundo. Entre camas e suspiros fizeram a alegria mais secretas do mundo que era aquele quarto, quintal e banheiro da 4ª série da Escolinha Mundo Encantado do Tio Ary.

A boneca que tinha nome de santa ficou grávida de um soldadinho de chumbo, pariu 24h depois um bezerro de ouro o qual foi destroçado pelas crianças da 4º série do Tio Ary. A que tinha nome de prostituta aprisionou a alma e o corpo de  J.V. Cidinha que nunca chegou a 5ª série.

 A que tem nome de santa sumiu. A de prostituta vaga entre os moto-boys do Trapiche de Baixo com  J.V. Cidinha nos braços. São Dim-Plim mudou-se para Ásia Ocidental e carrega sempre nas mãos um pedacinho de ouro, benção e maldição sua, santificada e alegre 4ª série da Escolinha Mundo Encantado do Tio Ary.

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Escrito por Ediney Santana às 08h26
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                     Cenotáfio a um herói

                                  De:Ediney Santana

 

Aquele vestido de noiva era seu encanto, sua paixão. Por isso mesmo ficava ali horas e horas enfrente a vitrine da Loja Nova.

Henrique foi deixando de lado suas rotinas, tornara-se um homem estanque, um homem sem rotina, seu mundo era a vitrine da loja admirando o vestido de noiva.

Seus amigos esqueceram-se dele, sua esposa foi embora com um circo que passou na Santo Amaro cinzenta do mês de dezembro.

Ele nem notou sua solidão, porque para ele sua vida era cor de rosa como aquele vestido de noiva o qual tanto o fascinava.

Nos dias em que o vestido era alugado Henrique passava mal: Vômito, febre e diarréia. Era desesperador para ele saber que aquele vestido dividiria sua alegria com alguém que não fosse ele.

                                                            

II

 

Cabelos brancos. Restam ainda alguns dentes e na vitrine o velho vestido esquecido. Só Henrique continuava admirá-lo. Envelheceram juntos, para Henrique não existiam razões maiores no mundo de que seu amor estanque pelo vestido. Tinha suas histórias dos grandes casamentos o vestido, das princesas e noivos elegantes. Henrique lá na calçada sem histórias que mereçam ser contadas.

 

III

 

Do glamour ao caminhão de limpeza pública. O vestido foi jogado no lixo. Henrique correu atrás do caminhão da limpeza. 45 minutos depois que o caminhão havia descarregado o lixo no aterro sanitário, Henrique chegou. Não estava cansado, estava feliz, alegre.

Não sabia o local exato em que o caminhão descarregara o lixo e o seu vestido de noiva. Até hoje aos 87 anos de idade ele continua lá no aterro sanitário a procura do seu vestido de noiva cor de rosa.

IV

 

Nunca demonstrou cansaço ou tristeza. Apenas a alegria de saber que a qualquer momento ele vai encontrar o seu vestido de noiva cor de rosa.

 

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Escrito por Ediney Santana às 11h49
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         A santa na televisão

                      De: Ediney Santana

 

Ela pediu luz aos olhos da filha louca, a santa da televisão lançou-lhe suas dez pragas e ouve uma grade explosão de poucas cores.

No enterro apenas um abutre, um triste velho e um sem dentes coveiro rindo do seu prazer cotidiano.

Ela enterrou-se junto com a filha, tinha um punhal nas mãos e a vagina em petição de miséria.

Nasceu uma bela flor no túmulo. Ela também agora é santa, o caixão todo azul e brim escuro, saiu a voar pela tardes do mundo. Mastigar novos anjos e servi-los durante preces dos deuses de TV.

Pediu sorte a Deus, no seu novo nascimento, e uma filha com luz nos olhos. Na esquina das Ruas das Flores com o mercado municipal, faz vida, pari mais que os gatos e é mais cortejada, pelos bêbados, do que cadelas apodrecidas em resto de cio.

Gigantes da madrugada viviam no esgoto próximo a Rua Direita, gigantes que sabiam de moscas e rituais evangélicos por isso mesmo tinham a ilusão de serem essências à vida. Foi quando tudo começou a tremer, adeus crianças cegas ou não, adeus mundo, adeus mulheres do mal secreto. Beijo vossas mãos e peço a santa da TV que não me deixe ficar cego

Os gigantes que vivem na ilusão de serem essências à vida foram ao enterro. A terra tremeu novamente e do abismo saiu o mais belo deus. Os gigantes essências à vida foram soprados como pó. A santa da TV, o pedido, em tom de risos sem dentes
: Não me deixe ficar cega.

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Escrito por Ediney Santana às 15h11
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ASSIM JO JARDIM DA INFÂNCIA, COMO NO INFERNO

                                    De: Ediney Santana

 

“A felicidade só é verdadeira quando é individual”. Repetia isso com alegria e sentimento de amor profundo por si e tão somente por si.

Saiu por aí devorando tudo o que lhe parecia felicidade coletiva.  Com grande prazer enterrou tudo que era paz de espírito que havia em si no seu quintal de areia e cal. Era uma alma de guerra, raiva e guerra de pura tirania (que dizia ser divina) era senhor absoluto do ódio por tudo que brilhasse, por isso mesmo à noite adestrava tempestades absolutas nos beijos nocivos ao tempo seu.  Desejava purificar a beleza do mundo com sua raiva profunda de tudo que pudesse ser feliz, com tudo que era feliz.

Seus olhos pareciam dragões, mas não era rude. Tinha delicadeza de uma fada e elegância dos homens de terno em linho negro.

Na quinta- feira que vem matou todas as crianças do jardim da infância da Rua Chile, sufocou a todos com a raiva de um arco-íris sem luz.

Não fez isso pelas crianças, mas só para ri do desespero da mãe. Achava que as mães eram felizes de mais. Mãe gostava de amar incondicionalmente e nada mais torpe para ele e perigoso que o amor incondicional.

Agora à tarde engravidou de si, foi se reproduzindo indefinidamente pelo tempo, tempo que era sue refém, sua paixão em cirandas sem música.

Deus o fez com os melhores ingredientes que um ser humano poderia ser feito, deus era seu grande herói. Porque deus sabe se divertir com os infiéis no jardim da infância.   

Atou-se na frieza das camas do mundo, promoveu divórcios, inundou corações e mentes. “sei viver” disse agora a pouco ao sair de cena. Sabia viver, porque do mundo não se fez colecionador das “tolices que o tempo corrói”

Olhou para o céu, um relâmpago caiu bem no seu olho direito, ficou ali brilhando como quem anuncia a chegada do messias. Indefinido no ato de ser e crer fez passagem para tantos mundos que até respirou sem calma na paz que tanto negou ter em si.

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Escrito por Ediney Santana às 17h54
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                40 anos depois; Juracy Day

                                 De: Ediney Santana

 

40 anos depois. Juracy Day resolveu amar novamente. Amou elegantemente o que antes lhe dava medo e incertezas.

Amou Isadora  Feliz; durante duas horas amou profundamente , depois veio o frio sobre o amor que por duas horas foi puro, como só os amores puros o são.

Isadora nem percebeu o amor de Juracy Day, ela fiou assim: Criança de fastio, comedora de terra nos laços do acaso.

 Juracy Day de tão seu. Involuntariamente seu, foi ficando como casca de Jacarandá nem envelhecido e nem jovem apenas estanque de coração como um Jacarandá.

Enquanto Isadora enterrava Carlão da Moto Taxi, Iracema, Cristina, Pedro e tantos outros. Seus anos foram de enterro em enterro, porque em sua vida todas as horas eram de despedidas, Juracy Day estava ali amando, em duas horas intermináveis, como um Jacarandá sem porque de existir.

Juracy Day encontrou Isadora, mas não a reconheceu. A Isadora da suas duas horas estava muito longe em um tempo em que só existia o seu tempo, o tempo de Juracy Day, tempo de quem fez do coração a mais triste favela de um único amor.

Isadora Feliz sentada no banco da praça a comer algodão doce, inocente igual o anjinho de ontem à noite.

Isadora Feliz ficou bicho empalhado no banco do jardim. Beijo-flor, cigarras e sereias fizeram moradas entre os seus dedos. Isadora Feliz ficou lá na praça, dessas praças nas  quais moças felizes fazem festa a esperar por um amor qualquer que as livrem da solidão.

Juracy Day lá, perdido em suas duas horas de crimes amorosos. Quarenta asnos depois estava lá perdido em si, silenciado em si. Vivendo para si e para as duas horas em que amou sem medo, amor bom, amor sem revelações.

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Escrito por Ediney Santana às 14h38
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                  Pai

                        De: Ediney Santana

 

Bebo teu cálix em vinho seco de antigas mágoas. Porque tudo que é ódio na lua cheia é convite ao crime.

Palavra maldita que me enraiva pouco a pouco: Espírito.

Sirvo minha paz na cama em que te deitas, carne, carne... Carne ao teu leito de todas as sombras.

Crimes contra a vida, negação de vida nas minhas semanas santas, sou o teu mergulho sem fim, o teu amor que te treme em carne, o não perdão, a virtude que te salva.

Então ficamos áridos em frescor e silêncio. Brincamos como vaga-lumes na floresta sem vida. Era uma grande e alegre floresta, alegria dos que se fartam com a não vida, com aquela que meus lábios vibram ao falar: M.O.R.T.E.

Fuzilam mães enquanto poetas adentram em corpos açucarados. Vem PAI tira de mim a tua santidade,me deixa morrer na cama de uma errante humanidade. Não quero paraíso, quero os meninos da feira e as mulheres do Bar Vermelho.

Sexta- feria santa e provocantes pecados. Há vinho e lembranças. Um cadáver clama por justiça, uma prostituta brinca comigo na cidade sem faces. Pai carrega-te de te a tua cruz faminta de homens e mulheres. Sou dos dias tudo que for lixo e monturo... Para ser humano é essencial ser e estar no lixo, todo lixo é carne, não há gente de verdade que se já espírito

Pai morre tua morte sozinho, morre tua morte eterna e me deixa nos braços da amada louca, do louco poeta cearense..B, do palhaço que me vulgariza no semáforo, da teia de aranha na qual fiz meus versos palafitas.

Adormece, sábado e alegria na cidade, vejo crianças a deflorando crianças, paixões e razões sinceras, milagres do homem de mil faces. Pai, bendito seja esse teu fruto entre as mulheres e os meninos.

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Escrito por Ediney Santana às 17h07
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                  Olhos (a cor do tempo)

                                  De: Ediney Santana

 

“Leve seu filho para casa”. Foi a última frase da médica. Fiquei olhando aquela mulher alta, negra, voz suave e levemente rouca.

Fascinava-me sua delicadeza em lidar com as tragédias. Era como se não fosse de verdade sua carne, sua cor, sua alegria contida. O cheiro de éter deixava tudo menos triste.

No bolso esquerdo: Drª Natalia Fiorin. Nome lindo! Elegância delicada no andar, olhar cheio de vida entre tanta dor.

“A medicina não pode fazer nada por seu filho”. Quase um orgasmo essa frase... Tudo naquele quarto combinava com ela: Os gritos de dor, a alegria velada e a paz fúnebre do lugar.

“No estômago é difícil curar”, disse ela calma como sempre. Minha mãe chorava, meu pai desmaiou, minha irmã brincava com o carrinho de madeira. Mais nada abalava a serenidade da Drª Natalia Fiorin. “Leve seu filho para casa” essa frase nos meus ouvidos era como um orgasmo seco. Na despedida quase pulei nos seus braços, ela olhou para mim e disse: Você é linda.

A Drª saiu do quarto, mamãe disse “Deus sabe o que faz”. Madrugou em Porto Velho.

Fomos para casa na Rua José Bonifácio. Drª Natalia Fiorin estava em todos nós e em meu corpo tudo era ela, no outro dia meu irmão madrugou. Dias depois minha puberdade chegou como um presente de natal.

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Escrito por Ediney Santana às 19h17
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                                       As abelhas

                                   De: Ediney Santana

 

Rafaely apareceu montada em mil raios de muitas cores. O céu todo ficou como um carnaval de reino solitário. Linda rainha Rafaely de mil raios coloridos.

Encantado devorei trovões e adormeci no inferno da vida em que Rafaely era o que de mim nunca tive, nunca existiu.

No dia em que “todo” o céu ficou em um branco cego, Rafaely apareceu de braços dados com uma tão parecida com ela que não soube a quem dizer “ eu te amo”. Triste mergulhei nas migalhas do “eu te amo” do qual nada era de mim.

O meu corpo de joelhos. Meu corpo era todo joelho, apenas um corpo curvado e devorado pelo próprio joelho. Rafaely indiferente dorme nos braços do inimigo.

Só dorme calma Rafaely porque nada mais que é humano lhe interessa, aprendeu, não com inimigos, mais com os alegres amigos, que humano bom é humano distante.

A terra ergue-se lentamente e comeu Rafaely, olhei no espelho, havia cabelos brancos em minha barba, não seu porque alegria fez de mim terra a devorar pequenas senhoras, senhoras do meu mundo vulgar.

Chove alecrins enquanto palhaços tocam clarinetas para Rafaely subir aos céus com seu vestido de noiva salpicado em sangue, sangue como raios de muitas cores. Os leões cantaram glórias ao senhor. Rafaely encantada no céu ficou. Mergulhei na medida fria de bons amigos, mortos, porque Rafaely me ensinou que amigo bom é amigo distante.

 

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Escrito por Ediney Santana às 09h24
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              Tenório: Cavalo marinho

                         De: Ediney Santana

 

Nunca teve em si o carinho e o respeito do outro. No entanto era ele a barriga do tudo, dele saia todas as coisas necessárias ou inventadas.

Sempre estava grávido. Pai solteiro do mundo, pai de absolutos abandonos, mas emoções quando sem ego morrem na cama fria da indiferença.

Veio uma leve tristeza ao cair da tarde, quando anoiteceu era ele um homem de abortos, havia abortado cinco invenções: Justiça, paz respeito e solidariedade.

Com um canivete dilacerou seu útero então madrugou tempo infinito e lá seus inimigos eram carnaval, sereias e sapos medievais. Sapos que cantavam sempre no soluço da noite: Eu amo matar você!!!

De dentro de sua cabeça saiu algumas caravelas, elas reinaram no mundo por 24 horas de silêncio. Alguém ascendeu um cigarro.

Luz de cigarro e fumaça lilás na água turva do oceano morto em sal.

Tenório não fumava, mas rio da fumaça do cigarro engoliu a fumaça e viu lobisomens entre os seus amigos.

Mergulhou em um fruto abortado, mergulhou profundamente no fruto abortado. Deus por fim abençoou a ordem santa que de tudo fez cinzas Até do meu amor por Tenório que me pariu.

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Escrito por Ediney Santana às 16h18
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                          Julian Foi ao paraíso

                                        De: Ediney Santana

 

Chegou ao meio do pontilhão, parou, viu o trem, disse consigo mesmo: o trem não parece uma lagarta?

Passou a vida toda com um desejo covarde de cruzar o pontilhão, nunca conseguia, mas está tarde foi até ao meio olhou para baixo e se encantou com o trem que lhe pareceu uma lagarta.

Não conhecia muito nem de si e nem do mundo, era um decalque de vida, um monte de ferrugem estanque, não sabendo disso era feliz. Só os estanques são felizes, felizes como cadáveres de lagartas cristalizados nos corações ferrugens.

Pulou para sua morte, desta vez, morte cheia de exatidão. O trem prosseguiu sua romaria pelas grotas dos sertões.

Julian ficou lá estanque, os carcarás não quiseram seu corpo, tiveram medo da ferrugem. Foram solidários ficaram lá até que veio o verão e a poeira do verão, o verão que liberta os ossos da carne.

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Escrito por Ediney Santana às 19h43
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                                        FERROS        

                                              De: Ediney Santana

Era o útero como uma sepultura, lá os monstros eram como partes do que rejeitado por todos me alimentava.

Eu, que desconhecido de mim mesmo escrevia a gilete e “amor perfeito” canções no sangrar da carne ria das lágrimas secas em concretos.

Era um viver anestesiado, nascido, porém já cadáver. Há muito encontrei um álbum de retratos, todos ali estavam sem vida, sem morte. Foi quando uma criança de dentro de sua triste foto estendeu sua mão e entrei na paisagem em preto e branco de um tempo sem vida, sem morte. Um tempo quase eterno.

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Escrito por Ediney Santana às 11h43
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