Olhos (a cor do tempo)
De: Ediney Santana
“Leve seu filho para casa”. Foi a última frase da médica. Fiquei olhando aquela mulher alta, negra, voz suave e levemente rouca.
Fascinava-me sua delicadeza em lidar com as tragédias. Era como se não fosse de verdade sua carne, sua cor, sua alegria contida. O cheiro de éter deixava tudo menos triste.
No bolso esquerdo: Drª Natalia Fiorin. Nome lindo! Elegância delicada no andar, olhar cheio de vida entre tanta dor.
“A medicina não pode fazer nada por seu filho”. Quase um orgasmo essa frase... Tudo naquele quarto combinava com ela: Os gritos de dor, a alegria velada e a paz fúnebre do lugar.
“No estômago é difícil curar”, disse ela calma como sempre. Minha mãe chorava, meu pai desmaiou, minha irmã brincava com o carrinho de madeira. Mais nada abalava a serenidade da Drª Natalia Fiorin. “Leve seu filho para casa” essa frase nos meus ouvidos era como um orgasmo seco. Na despedida quase pulei nos seus braços, ela olhou para mim e disse: Você é linda.
A Drª saiu do quarto, mamãe disse “Deus sabe o que faz”. Madrugou em Porto Velho.
Fomos para casa na Rua José Bonifácio. Drª Natalia Fiorin estava em todos nós e em meu corpo tudo era ela, no outro dia meu irmão madrugou. Dias depois minha puberdade chegou como um presente de natal.
ediney-santana@bol.com.br
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Escrito por Ediney Santana às 19h17
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