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Enquanto você chorava De: Ediney Santana Tio Joseph colecionava lenços de bolsos, todos cor de sangue. Adorava o vermelho sangue, quase tudo que tinha era vermelho. Usava um lenço por dia, mesmo sendo todos da mesma cor e formato nunca os confundia ou usava mais de uma vez o mesmo. Sua coleção de lenços começou porque todas às noites antes de dormir chorava compulsivamente ao lembrar de D. Bernadete, secretária do seu irmão. Quando D. Bernadete soube que Joseph gostava de escravizar borboletas não se perdoou por ter pedido a São Marón o intrépido coração do seu antes amado Joseph. Como poderia amar alguém que gostava de escravizar borboletas? Lamentava-se. Para punir-se dona Bernadete queimou todas as suas roupas e passou a vestir sempre o mesmo ridículo biquíni, todo decorado com borboletas roxas. Joseph mesmo sentindo remorso por Dona Bernadete nunca deixou de escravizar borboletas, mas todas às noites, até o fim de sua vida chorava ao lembrar das borboletas roxas no ridículo biquíni de Dona Bernadete. Primo Nino dizia que D. Bernadete e Joseph ficaram assim, ao avesso do mundo, porque só gostavam de coisas alheias. Ela do coração de Joseph, ele das borboletas serviçais. Nino argumentava que todo mundo deveria viver em casa de espelhos. Só os espelhos são sinceros, dizia repetidas vezes para si mesmo. Ele adorava ficar horas e horas em frente ao espelho perdido nos próprios olhos, era como Narciso apaixonado pela beleza que seus olhos no espelho lhe mostravam com tanta alegria. Tio Joseph com raiva do amor do primo Nino pelos próprios olhos, mandou traça-lo em um hospício sem espelhos. O pobre Nino arrancou um dos seus olhos tentando matar a saudade de si mesmo.Pensava ele que poderia usar um dos olhos como espelhos, que os olhos eram coisas vivas em sua oca cabeça de Narciso , partiu leve em cegueira , esquecido do mundo no qual olhar para si é pecado. D. Bernadete foi levada pelas almas borboletas do seu biquíni, tio Joseph de tanto chorar, ficou como um velho carvalho no outono, suas folhas secas sendo varridas pelo vento frio no Corredor da Vitória, lugar no qual o passado conta historias de um velho mundo repleto de espelhos e sonhos livres como borboletas em biquínis roxos. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br Ps. Esse conto foi escrito a partir de um artigo da escritora Renata Belmonte
Escrito por Ediney Santana às 16h01
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