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Ampulheta De: Ediney Santana Estou aqui dentro dessa ampulheta desde o tempo em que nosso Senhor deixou a cruz e foi para o céu em busca do seu pai traidor. A areia cai lentamente sobre meus olhos, não vejo nada, tudo fica a cegueira do tempo. Cai grão após grão enquanto não sei da lua ou sol, pouco importa. Para mim tudo é sempre tempo e nada além do passando me leva a não existência das horas. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@zip.net
Escrito por Ediney Santana às 20h06
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Essas noites De: Ediney Santana Porque o mais amado por mim é à noite, não sei da luz do dia, minha alegria está em tudo quanto for noturno. O dia é feito para o profundo sono,não quero luz alguma em minha pele. Ser noite quando o mundo dorme sua agonia sem saber. A noite não há nada ou alguém por perto, então sou completo soberano de mim...o branco do mundo é tão deselegante e opressor. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 19h48
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Tempo-tempo De: Ediney Santana Meia noite do dia 31 de dezembro do ano 2099, o tempo parou. Depois de cinco horas os relógios do mundo todo voltaram a marca 6:00h da tarde e assim que chegavam a meia noite voltavam para às 6:00h seis horas de sempre. Nunca mais nada foi além desse espaço tempo, sempre 31 de dezembro no ir i vir da alegria e do cansaço programado. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 10h34
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Sementes de luz De: Ediney Santana Plantei em seu coração sementes de tudo que há de bom no mundo, toda luz qual havia em mim entreguei a você. Meu fogo, meu sorriso, minha certeza de quem sou... minha paz... Tudo entreguei a você. Fiquei plantada no vazio de mim, quem fui morreu contigo quando tudo em devoção te entreguei. ediney-santana@bol.com.br http://cartasmentirosas.blogspot.com
Escrito por Ediney Santana às 19h18
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O Barbeiro De: Ediney Santana Pedro de Santa Inês sentou-se na velha e empoeirada cadeira de barbeiro de seu Otacílio. O velho barbeiro falava sem parar, sem reticências, dizia estar preocupado com a guerra das Malvinas, embora Barra de Mundo Novo ficasse a milhas e milhas da ilha argentina. Otacílio tinha medo que uma bala perdida o acertasse em cheio pelas costas. Passou-se seis horas desde o inicio do corte de cabelo e quanto mais Otacílio cortava mais o cabelo de Pedro de Santa Inês crescia, o cabelo já estava a entrar na pequena igrejinha quando o padre Licanor “vai de retro satanás, na casa de Deus não”. E foi crescendo o cabelo, cresceu tanto que Otacílio adormeceu ali em pé com a tesoura nas mãos. Pedro de Santa Inês era só pelo, veio gente do mundo todo para ver o homem cabelo, até um piloto inglês que ia para a guerra das Malvinas pousou na Barra só para ver de perto o velho barbeiro adormecido e o homem do cabelo que nunca parava de crescer. Pedro Santa Inês ficou ali, entre o velho Otacílio e o povo que já começava a acender velas e às vezes a jogar pedras. ediney-santana@bol.com.br http://cartasmentirosas.blogspot.com
Escrito por Ediney Santana às 20h23
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Bandeira, Tamanduá De: Ediney Santana Nasceu dentro de mim um Tamanduá Bandeira, embora cego, sabia das luzes e escuridões do mundo. Ele nascido levou consigo tudo de bom que em mim havia, deixou meu corpo como se fosse um saco vazio. À noite não sei do sono, porque o Tamanduá Bandeira levou a leveza do sono das minhas noites, por isso meu coração bate no ritmo incerto dos pingos da chuva, meu sangue quase gelo machuca meus rins, tudo isso enquanto o Tamanduá Bandeira dança entre formigas. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 10h03
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Altair De: Ediney Santana Lá vem ele, o homem que nunca veste camisas, segue por aí indiferente ao frio ou calor, o homem sem camisas não parece feliz, todos olham para ele como se naquele corpo todo o mistério do mundo estivesse guardado, só porque ele é o homem que não gosta de camisas. Entra no bar de Salvador, olha os homens jogando dominó, homens que só jogam dominó, ele olha todos parecem mais felizes que ele, porque ele é o único que não gosta de vestir camisas, porque ninguém é como eu. Pensa ele na sua calma triste. Lá vai o homem que nunca veste camisas. Passa pela praça, olha o Chafariz, fica contente ao observar que os anjinhos de bronze também não usam camisas, misteriosamente o homem inimigo das camisas desaparece pelos becos da antiga cidade dos tempos dos barões e suas camisas de seda. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 17h35
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Eu, você e o cometa De: Ediney Santana “Cansei”. Ouvi essa frase do meu pai há exatos sessenta anos. Logo depois de ter dito isso meu pai segurou na calda do Haley e se foi. Hoje entendo o meu pai, viver entre a relva e os da minha espécie é nada além de bisonho cansaço. Seguro agora emocionado na calda de um colorido e elefante indiano e me vou para as mil e uma noites de Scherazade. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 14h45
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Coração partido De: Ediney Santana Cortou seu dedo anular e mandou para J. Guimarães que dormia com Ana, sua amante preferida. Não adiantou, J. Guimarães, continuou dormindo. Então July cortou a mão inteira e mandou junto com um bilhete: com amor July. J. Guimarães jogou na lata do lixo e trepou no corpo de Ana como se Ana fosse a única razão do mundo. Então July cortou suas orelhas, J.Guimarães rio, July não gostou de ver nos dentes de Guimarães algumas caris. Disse para si mesma: as caris nos dentes do meu amor são culpa da vagabunda da Ana. July assassinou Ana. J. Guimarães não se incomodou, já estava nos braços de Almeida de Menezes, seu segundo amante predileto. http://carastasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 16h16
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A menina sem rua De: Ediney Santana Acácia de Lurdes há dois anos não sai de casa, tudo porque tem medo que alguém possa lhe fazer mal. Houve um tempo o qual Acácia de Lurdes só saia de casa nas madrugadas, era menos arriscado, pensava ela. Pouco a pouco Acácia de Lurdes foi ficando esquecida e nem em sua casa era lembrada, não sai do quarto nem para comer. Seu irmão Juarez Pinto dizia que ela era louca, sua mãe dizia que na noite do nascimento de Maria de Lurdes uma coruja trouxe um agourento santinho de presente, por isso Maria de Lurdes era assim desigual. Na madrugada passada Acácia de Lurdes resolveu sair de casa, foi até a pracinha do Bonfim e lá em um dos bancos adormeceu, calma e serena como sempre viveu e festejou sua vida de ausência. Seis da manhã foi acordada por São Expedito que a levou para sua casa, sua santa e misericordiosa casa. http://cartasmentrosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 09h17
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Vem comigo De:Ediney Santana Jurema Dias sempre imaginou como seria a expressão de morte do dono da padaria. Pensou tanto nisso que o matou só para olhar sua face cristalizada pela morte. Jurema Dias sentiu prazer nisso, logo imaginou como seria o enterro do seu filho João Dias, o afogou na banheira. Não gostou do enterro, porque lhe vestiram de anjinho. Assim Jurema Dias foi matando um a um todos os habitantes do Vila Serena, até que ficou só ! Olhou do último andar a ladeira da Barra e imaginou como seria se do alto se jogasse. Pensou que na hora que estivesse caindo criaria asas e sairia voando pelo Porto da Barra. Jogou-se, de olhos fechados, não viu a hora que seu corpo espatifou-se em frente à Cultura Francesa. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 09h54
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Bem-mal De :Ediney Santana Pela manhã nos casamos Fazemos uma festa Brincamos de eternamente Felizes . À tarde nascem nossos Filhos Lindas crianças quase Iguais ao que nunca fomos À noite envelhecemos E de mãos Dadas vamos nos esperar Além do bem ou mal
Escrito por Ediney Santana às 10h05
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Teia elétrica De: Ediney Santana Preso, João Maria espera sua morte. Não se desespera, sorrir calmamente enquanto toma seu café alaranjado em baunilha. Do outro lado, o sol que nunca se põe sorri pra João Maria, sabe o quanto vai se deliciar quando João Maria morrer e suas cinzas azuis, amarelas e creme voarem até ele. O sol que nunca se põe vai pouco a pouco secando João Maria, impiedosamente vai secando-o como soldadinhos de chumbo derrotados depois da alegre infância de alguém. João está calmo, pouco sente, seus olhos estão postos há anos sobre os montes invisíveis aos que não sabem do sol que nunca se põe, porque viveu como eles, invisível entre as coisas animadas e inanimadas. http://cartasmentirosas.blogspot.com http://edineysantana.zup.net
Escrito por Ediney Santana às 10h13
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Enquanto você chorava De: Ediney Santana Tio Joseph colecionava lenços de bolsos, todos cor de sangue. Adorava o vermelho sangue, quase tudo que tinha era vermelho. Usava um lenço por dia, mesmo sendo todos da mesma cor e formato nunca os confundia ou usava mais de uma vez o mesmo. Sua coleção de lenços começou porque todas às noites antes de dormir chorava compulsivamente ao lembrar de D. Bernadete, secretária do seu irmão. Quando D. Bernadete soube que Joseph gostava de escravizar borboletas não se perdoou por ter pedido a São Marón o intrépido coração do seu antes amado Joseph. Como poderia amar alguém que gostava de escravizar borboletas? Lamentava-se. Para punir-se dona Bernadete queimou todas as suas roupas e passou a vestir sempre o mesmo ridículo biquíni, todo decorado com borboletas roxas. Joseph mesmo sentindo remorso por Dona Bernadete nunca deixou de escravizar borboletas, mas todas às noites, até o fim de sua vida chorava ao lembrar das borboletas roxas no ridículo biquíni de Dona Bernadete. Primo Nino dizia que D. Bernadete e Joseph ficaram assim, ao avesso do mundo, porque só gostavam de coisas alheias. Ela do coração de Joseph, ele das borboletas serviçais. Nino argumentava que todo mundo deveria viver em casa de espelhos. Só os espelhos são sinceros, dizia repetidas vezes para si mesmo. Ele adorava ficar horas e horas em frente ao espelho perdido nos próprios olhos, era como Narciso apaixonado pela beleza que seus olhos no espelho lhe mostravam com tanta alegria. Tio Joseph com raiva do amor do primo Nino pelos próprios olhos, mandou traça-lo em um hospício sem espelhos. O pobre Nino arrancou um dos seus olhos tentando matar a saudade de si mesmo.Pensava ele que poderia usar um dos olhos como espelhos, que os olhos eram coisas vivas em sua oca cabeça de Narciso , partiu leve em cegueira , esquecido do mundo no qual olhar para si é pecado. D. Bernadete foi levada pelas almas borboletas do seu biquíni, tio Joseph de tanto chorar, ficou como um velho carvalho no outono, suas folhas secas sendo varridas pelo vento frio no Corredor da Vitória, lugar no qual o passado conta historias de um velho mundo repleto de espelhos e sonhos livres como borboletas em biquínis roxos. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br Ps. Esse conto foi escrito a partir de um artigo da escritora Renata Belmonte
Escrito por Ediney Santana às 16h01
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Convento dos Humildes De: Ediney Santana -Morrer não é tão somente morrer, como morrer desse jeito? Gritou Vilma da Feira do seu lilás e envelhecido caixão Ela morta há quase cem anos, depois de um frio, chato e católico velório vivia a resmungar pragas à vida e à morte. -Fui esquecida nos fundos da capela nº2 do Campo de Caridade, não haveria lugar melhor? Dentro de uma santa e madre igreja, por exemplo? Repetia a mesma frase inúmeras vezes. Não foi sepultada, depois que o cafezinho e bolinhos acabaram as sentinelas foram embora, o corpo ficou lá esquecido. Não tinha esperança de ser ouvida, gritava porque sentia uma espécie de orgasmo ao tentar se convencer o quanto estava realmente morta. - Sabia quem os vivos não levam mortos na conta de essenciais à vida. Lamentava-se às vezes Sua maior tristeza, no entanto não é estar morta e esquecida, nada disso, sua grande tristeza é não poder ir à missa no Convento dos Humildes as terças à noite, quando coincida com noite de carnaval na pequena Santo Amaro da Purificação. http://cartasmentirosas.blogspot.com ediney-santana@bol.com.br
Escrito por Ediney Santana às 17h38
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